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Nunca fiz terapia: o que acontece na primeira sessão

· 5 min de leitura · por Gabriela Lorenson, CRP 08/44403

Quase toda mulher que me escreve pela primeira vez manda alguma versão da mesma frase: "nunca fiz terapia, não sei bem como funciona". E, logo depois, quase sempre vem a pergunta que está de fato incomodando. Ela não é sobre abordagem, nem sobre horário, nem sobre valor. É: o que eu vou falar?

Este texto é para responder isso antes da nossa primeira conversa, para que ela comece um degrau mais alto.

Você não precisa preparar nada

Não existe lição de casa antes da primeira sessão. Você não precisa chegar com uma linha do tempo da sua vida, com o nome técnico do que está sentindo, nem com o assunto organizado em tópicos.

Eu sei que dá vontade de preparar. Preparar é uma forma de controlar o constrangimento de se expor para alguém que você nunca viu. Se preparar te acalma, prepare. Mas saiba que nada do que você trouxer escrito é obrigatório, e que a sessão pode ir para um lugar completamente diferente do que você planejou. Isso não é fracasso: é justamente o que a terapia faz.

Os primeiros minutos

A primeira sessão costuma começar por uma pergunta simples da minha parte, alguma variação de "o que te trouxe aqui?".

A partir daí, quem conduz é você. Eu não vou aplicar um questionário, não vou te pedir para pontuar sintomas de zero a dez e não vou entregar um diagnóstico ao final de cinquenta minutos. O que eu faço é escutar, e escutar de um jeito específico, diferente de ouvir uma amiga.

Muita gente começa falando do motivo mais concreto: o trabalho, o relacionamento, a insônia, a crise que aconteceu na semana passada. E, no meio do caminho, sem planejar, acaba falando de outra coisa. Essa outra coisa costuma ser a mais importante.

O que eu faço enquanto você fala

Enquanto você fala, eu presto atenção em três coisas ao mesmo tempo: o que você está dizendo, como você está dizendo, e o que você contorna toda vez que chega perto.

Não é análise de comportamento nem leitura de mente. É que a repetição fala. A frase que você já disse três vezes na mesma sessão, o assunto que sempre vira piada, o momento em que a voz muda de tom: tudo isso é material. Numa primeira sessão eu não devolvo nada disso pronto; só começo a acompanhar.

E se eu travar?

Você vai travar em algum momento, e está tudo bem.

O silêncio numa sessão de terapia não é um constrangimento a ser resolvido rápido. Ele quase sempre está dizendo alguma coisa: que o assunto ficou pesado, que você está avaliando se pode confiar em mim, que não existe palavra pronta para o que apareceu. Nenhuma dessas hipóteses é um problema.

Se travar e o silêncio te angustiar, você pode simplesmente me dizer isso: "eu travei". Já é uma frase suficiente para a gente continuar de outro jeito.

O que fica combinado no fim

No fim da primeira conversa, a gente conversa sobre o enquadre: com que frequência a gente se encontra, em que horário, e qual o valor. Eu prefiro tratar disso conversando, e não com uma tabela publicada, porque o combinado precisa caber na sua vida. Sem isso a terapia não tem continuidade, e a continuidade é boa parte do que faz o trabalho funcionar.

Você não precisa decidir nada na hora. É legítimo dizer que quer pensar, e é legítimo conversar com mais de uma psicóloga antes de escolher. A relação terapêutica não é um detalhe do processo; ela é o processo.

Uma última coisa

Não existe motivo pequeno demais para procurar terapia. A ideia de que só se vai ao psicólogo quando a vida desabou faz com que muita gente chegue exausta, tarde demais, achando que precisava "estar pior" para merecer ajuda.

Se você chegou até aqui lendo até o fim, o motivo já é suficiente.


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