O que é psicoterapia de orientação psicanalítica
· 6 min de leitura · por Gabriela Lorenson, CRP 08/44403
"Psicoterapia de orientação psicanalítica" é uma expressão que aparece em quase todo perfil de psicóloga e que quase ninguém explica. Ela soa antiga, técnica e um pouco intimidante, e nada disso é necessário. Dá para explicar em linguagem comum.
O que "orientação psicanalítica" quer dizer
Quer dizer que o trabalho parte de duas ideias.
A primeira: você não sabe tudo sobre os motivos do que você faz. Existe uma parte do funcionamento psíquico que não está disponível para a consciência, e que aparece de lado: em atos falhos, em sonhos, em escolhas que se repetem, em sintomas que não cedem à força de vontade. Se bastasse decidir parar de sofrer, ninguém procuraria terapia.
A segunda: falar livremente, para alguém que escuta de um jeito específico, produz efeito. Não é desabafo, não é conselho e não é conversa entre amigas. É um dispositivo. A sua fala, dita em voz alta na presença de outra pessoa, muda de forma no caminho, e é nessa mudança que o trabalho acontece.
Três coisas que ela não é
Não é ficar deitada num divã. O divã é uma ferramenta específica da psicanálise clássica, com uma frequência e um enquadre próprios. A psicoterapia de orientação psicanalítica costuma ser cara a cara, sentadas, uma vez por semana. No atendimento online, pela tela.
Não é interpretar sonhos como quem consulta um dicionário. Sonhos podem aparecer, e são material excelente. Mas ninguém vai te dizer que água significa emoção. O que interessa é o que aquele sonho evoca em você.
Não é falar da infância o tempo todo. A história antiga aparece porque ela insiste no presente, não porque existe uma regra de começar pelo começo. Muitas sessões falam do que aconteceu ontem à noite.
O que a sessão parece por dentro
Não há roteiro de perguntas. Não há tarefa para casa. Não há uma técnica que se aplica na semana três.
Na prática, você fala do que aparecer, e eu escuto o que se repete. Com o tempo, e isso é literal, começam a se desenhar padrões: o tipo de relação que você sempre acaba construindo, o lugar que você sempre ocupa no conflito, a frase que você diz sobre si mesma desde os quinze anos sem nunca ter examinado.
Quando esses padrões ficam visíveis, eles param de te governar do escuro. Não somem por isso, mas passam a ser uma escolha possível, em vez de um destino.
Para quem costuma fazer sentido
Costuma fazer sentido para quem já tentou resolver na base da disciplina e percebeu que não resolveu. Para quem tem uma vida que, vista de fora, está funcionando, e por dentro não está. Para quem repete o mesmo tipo de relação sabendo que repete. Para quem carrega uma culpa que não consegue nomear.
E costuma fazer sentido para quem quer entender, não apenas aliviar. Essa é uma diferença honesta de expectativa, e vale dizer em voz alta antes de começar.
E quanto tempo leva?
Não tem prazo, e desconfie de quem promete um.
O que eu posso dizer com honestidade é que não é um processo de quatro semanas. A elaboração precisa de repetição, e a repetição precisa de tempo. Em compensação, o que se elabora costuma não voltar do mesmo jeito.
Se você quiser conversar sobre como isso funcionaria no seu caso, é só me mandar uma mensagem. A primeira conversa serve para isso.
Outros textos
Nunca fiz terapia: o que acontece na primeira sessão
A dúvida mais comum de quem nunca fez terapia não é sobre a abordagem. É sobre o que dizer nos primeiros cinco minutos.
Terapia online funciona? O que muda quando a sessão é pela tela
A pergunta certa não é se funciona. É o que muda, e o que continua igual.